A DOR QUE NÃO PASSA

Roberto Ribeiro De Luca

Uma gota fria de orvalho dança trêfega ao vento,
cai pesada no velho nédio que segue devagar, manco.
Lembranças densas a este chegam atadas a mau tempo
e espargem sobre a via infindas lágrimas, o pranto.

Traz na língua tal bandalho o gosto amargo do absinto,
ressente corrosivo mal que lhe arqueia o ser vetusto.
Cena cruciante do passado o mantém preso em labirinto...
No ventre quase oco, ressurge o instante do soco, do susto:

[ Um menino brinca efusivo à bruma da rua molhada,
a garoa precipita-se do céu sobrecenho, raivoso.
Pela sarjeta insidiosa viaja uma bola assanhada,

que voa de pés infantes para rodas safas com pneus -
defensoras da incúria, riscadoras do chão seboso:
( No ar, um grito!)
espotejou-se todo o filho, dor atroz ficou em Deus...]