LEMBRANÇAS

Roberto Ribeiro De Luca

 
I

Meu pai era muito engraçado e muito bravo,
muito alegre e muito triste.

Tudo nele ressaltava muito:

muito falante,
muito estabanado,
muito emotivo,
muito parcial.

Defeitos e qualidades não lhe faltavam.
Sobrava-lhe muita vida!

Muito querido, amado!
Muito odiado, combatido!

Polêmico!

Adorava jogar cartas… Não passava um domingo sem
lançá-las à mesa. Dizia-nos que, após morrer, sobre o
corpo frio, não deveríamos colocar flores, queria fichas,
muitas fichas! Todos se riam! Nunca esqueci isso.
Quando morreu, no momento de descê-lo à cova,quase
lhe atirei algumas. Faltou-me coragem…Envolvendo o
caixão belíssimo, um pano enorme com o emblema do
time da cidade. De que me valeu escolher aquela
estrutura de madeira fina, entalhada, se quando fechada
foi logo enfronhada? Era certo que haveria gente.
Alheio às roupas, desatento, meu pai fazia bobagem,
quer dele cuidássemos ou não - meias trocadas, camisa
errada ou amassada. Algo sempre acontecia,revelando o
homem popular.
E o caixão belíssimo?
Vestiu-o o dono.

II

Minha mãe sempre suspirava:
“Jesus Cristo, dai-me paciência!”
E eu gracejando a arremedava:
“Jesus Cristo, dê-lhe paciência!”

Tanta paciência coitada:
três safenas, duas mamárias!
Tinha o sono da alma cansada.
Temia bombas incendiárias…

Hoje, também peço, murmuro:
“Jesus Cristo, dai-me paciência!”
Debique, sinto dos que aturo:
"Jesus Cristo, dê-lhe paciência!"

Será que evitarei o enfarto?