OUTRA MARIA

Roberto Ribeiro De Luca

 
À Maria Bethânia

Ela é som pujante, impacto nos ouvidos.
Ondeia vibração beta em estranho rito,
que seca avareza, acalma o peito aflito,
restaura a certeza esfuziante dos sentidos.

Crepita sob aura intensa.
Queima os que estão a sua frente.
Comovida, tensa,
esparrama bálsamo benquerente
sobre as feridas abertas.

É mãe, avó e
bisavó
da poesia,
o melhor exemplo
de estrela fulgente,

a mais brilhante,
a sempre quente,
a menos fria!

Guiada por encanto,
fende os mares
com raios e tempestades.
Dissipa rotina,
letargia e pranto
das cidades,
ao crispar-se nos altares
ante aérea guilhotina.

Arranca ouro da terra pobre,
visita planeta inexplorado,
distante,
com o qual mantém
alguma espécie
de vínculo nobre,
não nos revelado,
mas que num instante
percebemos.

Pássaro proibido
de proibir,
emudece a cena
da navalha cortando a carne,
do sangue derretendo a neve,

para assim

matar a ignomínia crua,
libertar o estoicismo enregelado,

sem opressão,
sem egoísmo.

Levanta o Sol
todas as manhãs
quando ora
pela pátria amada
sobre as rechãs
e roga
luxo para todos.

Pássaro matinal!

Se triste, transforma
a Terra numa bola de chumbo…

Sua alegria faz do mendigo
um rei, ou Deus de Creta.
E do verdugo enriquecido
um frei de vida reta,
moribundo.

É mantra visceral
contra
desesperança
e amargura.
A fúria selvagem
de seu porte
afasta
toda a sombra,
evoca toda a sorte
que nos traz bonança,
brandura.

Anda
a brincar comigo
sem enganos,
desde quando,
aos onze anos,
vislumbrei,
em certo “Drama”,
em certa insânia,
esse jeito melodioso,
Bethânia,
de me alar aos céus,
de mitigar os tormentos meus…
Que voz!
Que voz, meu Deus!