PRECONCEITO

Roberto Ribeiro De Luca

Amemo-nos mais,
odiemo-nos menos!
O amor nos faz grandes.
O ódio, pequenos…

I

Desistiu da roupa que o vestia, deixou
a morada anosa e fria, do assoalho tredo.
O gesto misterioso, Edgar Allan Poe,
qui-lo efusivo, mas a cola vã do medo

enublou-lhe os olhos, ressumando tristeza.
Despido, quase desceu a um poço qualquer,
a fim de livrar-se da horrível incerteza:
compungir ou não sua delicada mulher?

Pensou…mal refletiu, decorou bem um texto
e seguiu, despercebido, sob o interlúnio,
até o nascimento de novo contexto.

Num zás, o pano subiu, acendeu-se a luz.
A plateia, chasqueando em coro do infortúnio,
exlamou: “Fora gazela! Fora avestruz!”

 

II

Fechou-se numa concha sobre a madrepérola.
Aí dormiu até alcançar idade adulta.
Forcejou por ela a verdade, outra pérola,
por beber-lhe o perfume que embriaga, exulta!

Veio a aragem, viração, a tarde era opalina.
Na esteira, duas pedras brilhavam sem descanso,
duas Fedras com energia masculina -
estesia e unção - gloriavam o cordeiro manso.

Desmaiava já a luz, quando avaro pastor
ali surgiu: farinha e cuscuz, bela Páscoa!
Pensando ser ele Nabucodonosor,

dos jardins de antes, suspensos da Babilônia,
fuzilou as amantes com bravatas e áscua:
“Serpes dos festins! Baratas da vila Sônia!"