UM CANGACEIRO

Roberto Ribeiro De Luca

 
O Sol vermelho, solitário, no imenso céu vazio,
queima o arvoredo torto, sedento, do chão seco, obscuro.
Abutres ligeiros, exaltados pelo tempo de estio,
comem famintos a carniça rala do bezerro duro.

Um cangaceiro sujo, bestial, caminha pela erma estrada,
relanceia os olhos para a paisagem fatal com enleio.
Certeiro, empunha uma carabina velha, quase estragada,
e espalha em revoada a nuvem negra sem receio.

Achega-se das tripas que excitam moscas inclementes,
devora o almejado tutano das costelas rentes,
em ritual vesano, próprio de quem atropela a razão.

Lagarto, invade a pequenina casa de palha coberta,
deixa aí a menina, deflorada, com a gorja aberta,
e retorna farto à estrada ensanguentada do sertão!