UM SERTANEJO

Roberto Ribeiro De Luca

 
Vivo insulado neste sertão escasso, imenso,
a arrastar os tórridos dias com nefando letargo.
Pó vermelho, do chão levantado, enodoa o lenço
branco que na testa em febre amasso. E ardo…

As horas misturam-se ao saibro do rio apático,
desidratado, cujas margens rachadas exploro
à caça de lesmas e mariscos. Calor tantálico
deforma a sarça, mantém firme o cardo. E choro…

Os desejos mundanos, sufocados, sem provê-los,
tornam-me arquejante, prestes ao eterno desmaio.
Sou a fome dos animais peçonhentos, sem pelos,

o banquete que estufa o ventre de insetos tiranos!
Desbota-se-me o sangue com o atraso do raio…
Perco assim a mocidade no ocaso de alguns anos…